em relação à questão da despenalização do aborto nunca tive dúvidas. e nunca pude ir votar.
desta vez não posso ir porque estou longe e não tenho direito a voto antecipado, nem a votação por carta, nem a ir votar à embaixada ou ao consulado - é só um referendo, não há cá dessas mariquices, aparentemente. (algum abstencionista por aí que queira fazer o jeito?)
já li e vi muita coisa acerca disto. maravilhas da nova era da comunicação. muita parvoíce do lado do não e do lado do sim. o que é natural. esta questão inflama-nos. a mim inflama muito. sempre que tento escrever alguma coisa acerca disto irrito-me. tremem-me as mãos. começo a hiperventilar. não consigo perceber o outro lado. saem-me gritos desproporcionados pelos dedos e tenho vontade de insultar todos quantos andam praí a dizer disparates (barbaridades!), a enfiar panfletos nas malas de crianças inocentes, a servir-se da figura bem-falante para confundirbaralharoqueéqueeledissemesmo, a propôr mudanças de lei ou penitências públicas ou raicoparta. sim, é tudo do lado do não. não sou imparcial nem pretendo ser - não me vou pôr agora aqui a apontar fraquezas do sim, tá?
por partes:
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez (...)?"
concordo. a chave aqui é a palavra despenalização. não está lá escrito liberalização, embora haja quem jure a pés juntos que é isso que lá está. mas não é. remeto para o (grande) conhecedor de termos jurídicos aqui. mas há por aí alguém (deve haver, mas aposto que são poucos e que precisam de alguma ajuda psiquiátrica) que ache que uma mulher que aborte tem de ir presa? clamam aos quatro ventos que nenhuma mulher é condenada (o que é mentira). e que a lei deve continuar na mesma, mas sem se condenar nenhuma mulher. esta gente está parva? está bem que isto de cumprir leis é um bocadinho subjectivo em portugal (vejam-se os limites de velocidade e quantos consideram velocidade de cruzeiro um valor que já é considerado crime), mas caberá na cabeça de alguém ter uma lei que diz explicitamente que a mulher grávida que der o seu consentimento ou que pratique um aborto e que a pessoa que a fizer abortar são punidos com pena de prisão até 3 anos e depois, em letra miudinha entre parênteses, escrever: ah, mas isto é assim meio a brincar, está bem? é só para assustar?! e não me venham com conversas anormais dizendo que o aborto vai aumentar se for despenalizado. uma coisa garanto: o aborto legal aumenta de certeza. mas ninguém aborta por gosto.
"(...) se realizada, por opção da mulher (...)"
havia de ser por opção de quem? vamos lá ver as várias hipóteses para um casal, já que anda toda a gente muita aflita com o coitadinho do homem que não tem voz no assunto.
. ambos querem um filho: perfeito. acabou a discussão;
. nenhum quer um filho: quase perfeito. se têm dinheiro vão a espanha. se não têm dinheiro estão lixados. ou arranjam algum e através de alguém que conhece alguém que ouviu falar de qualquer coisa, acabam nalgum sítio escondido a fazer figas para que a mulher saia de lá inteira e a respirar; ou acabam na internet à procura de cházinhos abortivos e maneiras de fazer abortos com lâminas como a brasileira que veio aqui parar há uns tempos; ou a desgraçada da criança acaba por nascer e, com sorte, alguma instituição se ocupa dela - ou os pais ganham o euromilhões -, com azar, acaba no congelador junto ao peru de natal (isto aconteceu onde eu moro);
. a mãe quer o filho, mas o pai não: idealmente ela mandava o homem dar uma curva e tinha a criança sozinha. como não vivemos num mundo ideal, às vezes acaba por abortar na mesma;
. a mãe não quer o filho, mas o pai quer: pronto. aqui é que está o problema. como é que nos desembrulhamos desta? metade da informação genética no feto é pertença do senhor, não? talvez... ainda demora um tempinho até que se possam fazer testes de paternidade. dela é de certeza. e se a vontade dele prevalecesse e no fim ele descobrisse que o puto era do carteiro e cagasse no assunto? era giro. e, admitindo mais uma vez que ele pode decidir, a mulher fica a ser o quê? incubadora? olha, agora aguenta. durante nove meses a alimentar e carregar um ser em crescimento dentro dela, sem o querer? e a criança? um estudo qualquer - não tenho a referência, têm de acreditar em mim - apontava para uma relação entre a saúde da criança e a vontade da mãe que a carrega de a ter. é aquela coisa do amor, parece-me. costuma ser importante quando se cria um filho.
meus queridos, por muito que doa, só as mulheres conseguem fazer crescer um ovo, mesmo que o espermatozóide tenha tido um papel importante na coisa. não dá para dar a volta a isto.
também há por aí quem ache que isso dá um poder desmesurado às mulheres (que, coitadas, são fracas, não aguentam) e que por isso precisam de alguém que as ajude a pensar. tipo comissão autorizadora de abortos, acho. incrivelmente, eu até concordo em parte. vejam mais abaixo na última parte da pergunta.
"(...) nas primeiras dez semanas (...)"
este é um período como outro qualquer. bom, como outro qualquer não. decidiu-se que era o tempo suficiente para a mulher se aperceber da gravidez, reflectir sobre o assunto e, no caso de assim o decidir, interromper a gravidez em segurança. em muitos países o período é de doze semanas, mesmo mais noutros sítios. definiu-se assim. concordo que assim seja. concordaria com um prazo mais alargado, mas decidiu-se este. a objecção de o aborto às dez semanas e um dia continuar a ser penalizado é acéfala. parece réplica de escola primária a acabar com uma língua de fora. e nem vou dizer mais nada sobre isto.
"(...) em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"
esta parte é muito importante. numa manobra que nem sei classificar, o senhor marques mendes andava a querer mudar a lei depois do referendo, se o não ganhar. como é que é? ah e tal, sou contra agora, mas depois de 11 de fevereiro despenalizamos. ãh? o problema parece que é esta parte do estabelecimento de saúde legalmente autorizado. não percebo. querem o quê? despenaliza-se, mas quem precise de fazer um aborto continua a ter de ir a espanha ou ao vão de escada mais próximo?
o facto de se poder proceder à interrupção da gravidez num estabelecimento de saúde legalmente autorizado tem várias vantagens. entre as mais importantes, terá condições médicas (dignas e seguras) e permitirá um acompanhamento das mulheres que a ele recorrem - acompanhamento médico e planeamento familiar (olha aqui a parte da comissão autorizadora de abortos. nem a estavam a ver, hein?). esta intervenção junto das grávidas tem, quanto a mim, dois aspectos muito importantes: será possível apresentar opções à mulher que ela, num momento de desespero, poderia nem ter considerado; e permite ensinar. o senhor júlio machado vaz concorda comigo.
isto leva a que morram menos, se estropiem menos com cabides enfiados vagina acima, engravidem menos sem quererem, e abortem menos. só se ganha, não?
(isto está um bocado grande. e não disse tudo.)
mais ligações:
a lei em vigor
o aborto em portugal - estudo da apf








































