23 maio 2006

coisas do agora e coisas do antigamente

gosto muito disto do agora. disto da internet e tretas do género. porque estou longe e não parece. qualquer que seja a altura, olho para o ecrã do computador e encontro sempre um amigo ou dois. podemos nem conversar, mas sei que se carregar lá e disser olá recebo outro olá de volta. a coisa está tão bem feita que posso até combinar idas às compras e acreditar nelas. assim durante dois instantes, enquanto não me lembro que me separam uns milhares de quilómetros da mercearia da esquina.

mas gosto. e gosto de estar a ler qualquer coisa parva e só um português entender e mesmo assim poder partilhá-la em dois cliques rápidos. porque há portugueses em todo o lado e no meu computador há muitos.

não sempre.

há aqueles momentos em que a saudade é tanta que não dá para fingir que a distância é curta. ou aqueles outros em que o rooter do moço do quarto de cima vai abaixo e ele não está lá para arranjar e não deixou a chave com ninguém e se desespera porque um computador sem internet já não serve para nada, muito menos para mandar acenos e adeuses para longe.

e nesses momentos é que suspiro.

lembro-me dos molhos de folhas escritas que tenho guardadas em casa, cheias de desabafos juvenis - tantos problemas e tão grandes e tão pequenos e tudo. conversas que duram anos ou só o tempo da volta do correio. são todas boas. sempre gostei muito de cartas.

gosto de pegar nelas ainda fechadas e tentar imaginar o que lá vem dentro. se risos, se choros, se muitas palavras, se poucas. gosto de me demorar na caligrafia da pessoa. tentar adivinhar a pressa ou o vagar com que escreveu. e sentir os sulcos que o bico da caneta imprimiu no papel. gosto de pensar que aquela carta é só para mim, que me vem alimentar a veia egoísta. e fico vaidosa de pensar que, pelo menos durante os minutos que demorou a escrever, selar e enviar, foi tudo para mim. o que é que querem? são fraquezas.

aqui longe, a carta é isto e muito mais. muito mais que não consigo escrever. porque são pedacinhos de pessoas que vêm ter comigo. pedacinhos do sol que se envergonha de brilhar por aqui que vêm agarrados ao papel. e o mar. e as ruas. e os cheiros. e tudo.

de repente parece que já voltei. durante um bocadinho fui até ao guincho. ou perdi-me em lisboa. ou estou a comer um gelado no santini. ou a ver um filme obscuro numa sala de cinema com sofás de veludo coçado que cheiram a mofo.

hoje cheguei à residência e entrou-me um raio de sol pelos olhos adentro. no envelope vinha isto:



6 comentários:

vera lu disse...

;)... beijos grandes! V

RAA disse...

O Guincho e o Santini deixam sempre saudades. Eu até em Lisboa tenho saudades deles!

DRei disse...

Deixaste-me agora um sorriso na cara. Tb às vezes penso em como isto da internet é tao bom qdo se está fora e em como falo mais agora com alguns amigos do que qdo viviamos a pouquitos quilómetros de distância. Pena é, que com estas tecnologias, já pouca gente se lembre da magia que é receber uma carta... e portanto, se esqueca também de a escrever. Mas já lá ele dizia: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades." Bjinhos.

Claudia disse...

:)é bom ler-te. sempre!

Garfanho disse...

estive quase para deixar um comentário a dizer que gostei muito de ler este post, que fiquei a sorrir e que nunca estive longe, mas percebi o(s) sentimento(s); depois parei, e achei que a minha conversa, ainda que verdadeira, era um bocado pirosa e, além do mais desnecessária em face da notória qualidade do post, que não precisa que a reconheçam, assim deci apagar e deixar só
:)
(como se fosse uma carta).

garfanho

purpurina disse...

:o) de volta.

mas para a próxima podes deixar a conversa pirosa. também conta e eu até acho piada.